Lição 01: O Chamado para os Gentios

Lição 01: O Chamado para os Gentios
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Você já se perguntou por que a missão cristã não começou em Jerusalém, com os apóstolos mais experientes, com os líderes que tinham andado pessoalmente com Jesus? Por que foi numa cidade síria, numa comunidade formada por discípulos dispersos pela perseguição, por pessoas de origens completamente diferentes, que o Espírito Santo escolheu dizer: “Apartai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”?

Hoje vamos entender que Atos 13 não é apenas o início de uma viagem missionária. É o momento em que Deus tornava visível o que vinha desdobrando desde Abraão.

INTRODUÇÃO

Para entender o que acontece em Atos 13, precisamos recuar um pouco e enxergar onde Lucas está na sua narrativa. No capítulo 1, versículo 8, Jesus traça um mapa do que viria a seguir: Jerusalém, depois a Judeia, depois a Samaria, e por fim os confins da terra. Os primeiros doze capítulos de Atos tratam exatamente dessa expansão, sempre gravitando em torno de Jerusalém, sempre com o povo judeu no centro da cena. A partir do capítulo 13, porém, algo muda. O foco se desloca, Jerusalém sai do palco principal, e Antioquia entra de uma forma que Lucas claramente preparou com cuidado.

Antioquia da Síria era a terceira maior cidade do mundo romano, uma metrópole onde culturas gregas, orientais e judaicas se misturavam no dia a dia. Foi ali que, segundo Atos 11.26, os seguidores de Jesus receberam pela primeira vez o nome de “cristãos”, não por autodeclaração, mas como um apelido vindo de fora, de quem olhava de fora para dentro e dizia: “esses aí são gente de Cristo.” Uma identidade que nasceu da mistura, da convivência, da vida compartilhada entre pessoas que, em qualquer outro contexto, jamais estariam no mesmo espaço.

Olhe para os líderes reunidos naquele culto de Atos 13.1: Barnabé, levita de Chipre; Simeão, chamado Níger, um nome com forte evidência de origem africana; Lúcio, cireneu, da atual Líbia; Manaém, criado junto com Herodes Antipas, filho de palácio; e Saulo, o rabino fariseu de Tarso. Cinco homens, cinco histórias radicalmente diferentes, diante do Senhor num momento de jejum e oração. Lucas registra esses nomes porque eles já antecipam, visualmente, o que a missão vai alcançar: uma comunidade que atravessa fronteiras étnicas, sociais e culturais porque o Evangelho nunca respeitou nenhuma delas.

Mas o que mais pesa nessa cena fica fácil de passar em branco se a gente não prestar atenção: o chamado aos gentios em Atos 13 não é uma novidade no plano de Deus. É o cumprimento de uma promessa muito mais antiga. Quando Deus chamou Abraão em Gênesis 12, já estava escrito que em Abraão seriam benditas todas as famílias da terra, não apenas Israel. Essa promessa atravessou séculos sendo progressivamente desdobrada, e Paulo a explica em Efésios 3.6 como um mistério que agora ficava claro: os gentios seriam herdeiros juntamente com Israel. Então quando o Espírito fala em Antioquia e envia Paulo e Barnabé para além das sinagogas, ele está cumprindo o que Isaías 49.6 havia anunciado muito antes: que a salvação de Deus chegaria até os confins da terra. A missão gentílica não é um desvio do plano de Deus. É exatamente onde ele sempre quis chegar.

I – O Nascimento da Missão Gentílica

Quando chegamos em Atos 13, Lucas nos coloca diante de uma cena aparentemente simples: um grupo de líderes em culto, orando e jejuando. Mas há algo de grande peso teológico nessa simplicidade, porque é exatamente ali que a missão cristã vai receber uma direção que vai definir o restante do livro de Atos e muito do que conhecemos como Igreja hoje.

Vamos ao versículo 1. Lucas registra que na igreja de Antioquia havia “alguns profetas e doutores”, e a seguir lista cinco nomes. Mas por que Antioquia? Por que não Jerusalém, que ainda tinha os apóstolos mais experientes, que tinha Pedro, que tinha uma memória viva da ressurreição? A resposta está no tipo de comunidade que Antioquia havia se tornado. Era uma cidade cosmopolita, formada por ondas de imigração, com culturas sobrepostas e idiomas misturados, e dentro dessa diversidade urbana havia uma igreja que já tinha aprendido a conviver com a diferença. Deus trabalhou através das circunstâncias históricas para formar uma comunidade que já vivia, na prática, aquilo que a missão precisava comunicar ao mundo. Antes de enviar para um mundo diverso, Ele formou uma comunidade diversa.

Esses cinco líderes que Lucas nomeia merecem atenção. Para que cinco pessoas com histórias tão radicalmente diferentes chegassem a uma postura comum de adoração e jejum, foi preciso que tivessem construído algo muito mais sólido do que afinidade pessoal. Eles tinham chegado à unidade que o Espírito produz quando uma comunidade se dispõe a colocar Cristo acima da própria história individual.

É justamente nessa atmosfera de serviço ao Senhor e jejum que o Espírito fala. Note que eles não estavam orando com uma pauta missionária. Não havia planejamento estratégico em curso. Eles estavam adorando. O jejum no Novo Testamento não é uma técnica de coerção espiritual, uma forma de pressionar Deus a agir. É uma postura de humildade e renúncia que torna a comunidade mais permeável à voz do Espírito. Havia ali uma disponibilidade genuína, e o Espírito respondeu a essa disponibilidade com uma palavra concreta, com nomes e com destino.

Agora preste atenção na palavra que o Espírito usa no versículo 2. Em grego, o verbo é ἀφορίσατε, aphorisate: apartai, separai, consagrai. Essa mesma raiz verbal Paulo usa de si mesmo em Romanos 1.1, quando escreve que foi “separado para o Evangelho de Deus”, e aparece novamente em Gálatas 1.15, onde ele reconhece ter sido separado desde o ventre de sua mãe. Quando o Espírito diz “apartai-me Barnabé e Saulo”, Ele não está inaugurando algo novo na vida de Paulo. Está tornando público e eclesial o que Deus, em sua presciência e propósito eterno, havia destinado para esse homem. O chamado de Paulo tinha nome e tinha hora marcada, e a comunidade de Antioquia foi convocada a reconhecer e ratificar esse chamado com discernimento.

A resposta da igreja no versículo 3 é muito significativa. Após orar e jejuar novamente, eles impuseram as mãos sobre Paulo e Barnabé e os despediram. A imposição de mãos aqui não é uma ordenação no sentido estrito; é um gesto de identificação. A congregação estava dizendo: nós vamos com vocês, nosso apoio e nossas orações seguem nessa missão. Ao enviar seus melhores obreiros, Antioquia não ficou para trás: ela foi junto, tornando-se ela mesma missão.

II – O Espírito Santo e a Obra Missionária

Há um hábito enraizado em muitas igrejas de tratar o Espírito Santo como o grande destinatário da missão, como se evangelizar fosse algo que a Igreja faz para honrá-lo, para cumprir algo que Ele espera receber de nós. Atos não deixa essa ideia de pé. O que o livro mostra, do começo ao fim, é que o Espírito Santo não recebe a missão; Ele a conduz. A Igreja não evangeliza para o Espírito. Ela evangeliza porque o Espírito está na frente, abrindo caminho antes mesmo de ela chegar.

O versículo 4 deixa isso visível de uma forma quase casual: “E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia.” Lucas poderia ter escrito que Paulo e Barnabé partiram, ou que a igreja os enviou. Mas não foi isso que ele escreveu. A iniciativa gramatical do versículo pertence ao Espírito. Eles foram enviados por Ele, e é essa convicção que sustenta toda a teologia missionária de Atos. Uma missão nascida do planejamento humano, por mais bem-intencionado que seja, vai tão longe quanto o entusiasmo humano aguentar. A missão conduzida pelo Espírito vai até onde Deus decidiu chegar, que são os confins da terra.

Na sequência, a partir do versículo 6, a narrativa nos leva a Pafos, onde Paulo e Barnabé encontram um homem chamado Barjesus, descrito como mágico e falso profeta, que estava na companhia do procônsul Sérgio Paulo. Quando o procônsul, apresentado por Lucas como um homem inteligente e sensato, chama os dois para ouvir a Palavra de Deus, Barjesus entra em campo tentando desviá-lo da fé.

O versículo 9 registra que Paulo, cheio do Espírito Santo, fixou os olhos nele. Esse gesto de “fixar os olhos” aparece em Atos associado a momentos de percepção espiritual apurada: é um ato de discernimento antes de ser um ato de confronto. Paulo estava enxergando o que o texto logo confirma: que aquele homem não era apenas um opositor humano, mas alguém que, ao resistir deliberadamente ao caminho do Senhor, estava bloqueando a possibilidade de outra pessoa receber a salvação.

A palavra grega que descreve a atitude de Barjesus no versículo 8 é ἀνθίστατο, anthistato: ele “resistia.” Esse verbo importa para quem leva a sério a teologia arminiana: a oposição ao Espírito Santo não é uma possibilidade abstrata, ela acontece de forma concreta e tem consequências. O julgamento que Paulo pronuncia, a cegueira temporária, é severo, mas Lucas o qualifica com cuidado: “por algum tempo.” Há, até na severidade, uma abertura para o arrependimento, o que nos diz que o julgamento de Deus nunca fecha completamente a porta da misericórdia.

Então vem a conversão de Sérgio Paulo, e Lucas descreve o detalhe que mais importa: o procônsul creu “maravilhado da doutrina do Senhor”, não apenas maravilhado com o milagre. O sinal da cegueira de Barjesus criou a abertura, mas foi o ensino que produziu a fé. O Evangelho alcançou um homem poderoso e politicamente influente não pela força do sobrenatural sozinha, mas pela autoridade do conteúdo da mensagem que o Espírito estava autenticando. Poder e doutrina caminham juntos em Atos, e isso não é acidente.

Há ainda um detalhe que Lucas insere aqui com muita precisão. É em Pafos, em solo gentílico, no meio de um confronto missionário, que o texto começa a chamar Saulo de Paulo. Vale entender o que está acontecendo: Paulo já tinha os dois nomes, Saulo hebraico e Paulo romano, como o próprio versículo 9 registra ao dizer “Saulo, que também se chama Paulo.” O que Lucas faz a partir daqui é uma escolha narrativa: o nome que vai predominar é o nome romano. É a forma que o narrador encontra de sinalizar que o ministério gentílico de Paulo começa agora de vez. O Espírito que conduz a missão é o mesmo que vai transformando os seus instrumentos ao longo do caminho.

III – A Igreja como Agência Missionária

Quero começar com uma distinção que parece pequena, mas que muda bastante coisa na prática: há uma diferença real entre uma igreja que faz missão e uma igreja que é missionária. A primeira tem projetos, ofertas, datas no calendário, talvez um missionário apoiado financeiramente. A segunda entende que a missão não é um setor dentro da sua estrutura, mas a razão pela qual ela existe. Antioquia era o segundo tipo, e é por isso que o Espírito pôde operar por meio dela de uma forma que acabou moldando a história do Evangelho.

Os teólogos costumam usar a expressão latina missio Dei, a missão de Deus, para descrever o que Atos está mostrando o tempo todo: a iniciativa missionária não pertence à Igreja. Ela pertence a Deus. Deus não depende da Igreja para cumprir os seus propósitos, mas, em sua graça, convida a Igreja a participar do que Ele já está fazendo no mundo. Isso muda a postura com que nos aproximamos do tema das missões. A pergunta deixa de ser “como convencemos Deus a endossar o que já planejamos?” e passa a ser “como discernimos o que Deus já está fazendo e nos colocamos dentro disso?”

Atos oferece um contraste silencioso que ilumina essa diferença. No capítulo 8, a Igreja de Jerusalém só começou a se dispersar depois que a perseguição tornou a permanência insustentável. Eles precisaram de pressão externa para fazer o que Jesus havia mandado desde o princípio. Antioquia percorre o caminho oposto: sem perseguição, sem crise, numa atmosfera de culto e comunhão, a comunidade ouve o Espírito e voluntariamente entrega seus dois melhores líderes para a missão. Essa diferença marca a distância entre uma obediência arrancada pela circunstância e uma obediência nascida de dentro, de uma comunidade que havia genuinamente internalizado o coração missionário de Deus.

Quando a congregação impõe as mãos e “despede” Paulo e Barnabé, o verbo grego é ἀπέλυσαν, apolyo: soltar, liberar com autorização. A igreja não apenas autorizou a partida; ela transferiu algo de si mesma para esses homens. Eles foram carregando a oração, a identidade e o compromisso da comunidade que os enviou. Antioquia foi junto, em algum sentido real, até o Chipre, até Antioquia da Pisídia, até Icônio. Uma igreja que envia missionários não fica para trás; ela vai embutida neles, de forma invisível, mas concreta.

Para nós hoje, isso vai além de manter um missionário no boletim da igreja. Toda comunidade cristã precisa examinar se sua estrutura, seus recursos, seu tempo e seu afeto estão orientados para fora, para alcançar quem ainda não ouviu o Evangelho, ou apenas para sustentar o que já existe. A Grande Comissão em Mateus 28 não foi um programa opcional para igrejas com perfil especial. Foi dada como a própria definição do que é ser discípulo de Jesus. Cada classe de EBD, cada célula, cada culto de oração é potencialmente uma Antioquia em miniatura: um espaço onde o Espírito ainda pode falar e dizer “apartai-me alguém para a obra a que tenho chamado.”

Quando esse momento chegar na sua comunidade, a questão é saber que tipo de resposta vai emergir: a de Antioquia, que ouviu e abriu mão do melhor que tinha, ou a de Jerusalém antes da perseguição, que precisou ser empurrada para o que sempre soube que era sua responsabilidade.

CONCLUSÃO

Ao longo deste estudo percorremos três movimentos que se conectam com naturalidade. O nascimento da missão gentílica não foi acidente histórico, mas o cumprimento de um propósito que Deus havia preparado desde Abraão, até que o momento e o lugar determinados por Ele se cumprissem. O Espírito Santo não é coadjuvante da missão; é o seu protagonista, Aquele que envia, que abre portas, que confronta resistências e autentica a mensagem com poder e com doutrina juntos. E a Igreja de Antioquia não era um ponto de partida logístico para Paulo e Barnabé: era uma comunidade que havia internalizado a missão como identidade, e por isso respondeu ao chamado do Espírito com generosidade e sem hesitação.

O que amarra esses três movimentos é uma convicção simples e pesada ao mesmo tempo: a missão sempre pertenceu a Deus, e o que a Igreja recebe é o privilégio de ser incluída nela. Não por mérito, não por capacidade organizacional, mas porque um Deus que ama os que estão longe, que nunca desistiu das nações, escolheu usar pessoas comuns, comunidades imperfeitas e cultos de adoração simples como o caminho pelo qual o Evangelho avança no mundo.

Antioquia nos deixa com uma pergunta que não dá pra responder no abstrato: o que estamos fazendo com o mesmo Espírito que falou lá? Ele ainda fala. Ainda separa, ainda envia, ainda abre portas onde não esperávamos. A questão é se estamos em postura de ouvir.

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Ozeias Silva

Amo Deus acima de tudo e estou apaixonado por compartilhar Sua Palavra e pregar a Verdade. Como pastor e professor da EBD a mais de 13 anos na Assembleia de Deus Min Belém, em Araraquara, estou comprometido em ajudar os outros a crescerem em sua fé.

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