Música AUÊ: Macumba gospel, sincretismo ou evangelismo cultural?

Nos últimos dias, a música “Auê (A Fé Ganhou)”, do Coletivo Candiero, gerou um intenso debate no meio evangélico brasileiro. De um lado, acusações duras de “macumba gospel”. De outro, defesas apaixonadas afirmando que se trata de uma expressão legítima de evangelização por meio da cultura brasileira.
Mas afinal, estamos diante de sincretismo? De exagero? Ou de uma tentativa legítima de contextualização do Evangelho?
Quero refletir sobre isso com equilíbrio, mas também com firmeza bíblica.
1. A acusação de “macumba gospel”
A polêmica começou quando trechos da música mencionando “Zé” e “Maria” foram interpretados por alguns como possíveis referências a entidades de religiões de matriz africana. Rapidamente, a internet fez o que sabe fazer: julgou, rotulou e polarizou.
É importante dizer com honestidade: não é possível afirmar com toda certeza que a intenção do grupo foi fazer referência a entidades espirituais. Intenção não se julga com base apenas em suposição.
Falando por mim, chamar de “macumba gospel” é sim um exagero dessa posição.
Porém, também é verdade que um louvor que gera confusão espiritual ao ponto de dividir profundamente o corpo de Cristo merece reflexão séria.
O objetivo do louvor é conduzir o povo à adoração clara e centrada em Deus. Se a música se torna mais debatida do que cantada, algo precisa ser analisado.
2. A defesa: evangelizar usando a cultura
A principal defesa apresentada é que a música seria uma forma de evangelização contextualizada, utilizando elementos da cultura nordestina, da musicalidade popular e da identidade brasileira.
E aqui precisamos reconhecer: sim, é bíblico usar elementos culturais como ponto de contato para anunciar o Evangelho.
O próprio apóstolo Paulo fez isso no Areópago, em Atenas:
“Porque, passando e observando os objetos do vosso culto, encontrei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais sem conhecer, é o que eu vos anuncio.”
(Atos 17:23)
Paulo citou poetas gregos (At 17:28). Ele dialogou com a cultura.
Mas há uma diferença crucial:
Paulo usou a cultura como ponte, não como base da mensagem.
Ele não adaptou o Evangelho para caber na mentalidade grega. Ele confrontou a idolatria. Ele chamou ao arrependimento (At 17:30). Ele exaltou a ressurreição de Cristo.
Aqui surge a pergunta necessária:
Até que ponto podemos usar a cultura sem sermos moldados por ela?
3. O alerta bíblico: quando a cultura passa a influenciar o povo de Deus
Aqueles que defendem usar a cultura para evangelizar a qualquer custo, certamente se esqueceram do motivo pelo qual Israel foi veementemente repreendido por Deus.
Desde a Lei, o Senhor estabeleceu distinções claras para que Israel não se confundisse com os povos idólatras ao redor.
“Não aprendereis a fazer conforme as abominações daquelas nações.”
(Deuteronômio 18:9)
Leis sobre vestimenta, barba e cabelo (Levítico 19:27; 19:19) não eram apenas estética. Eram identidade. Separação. Santidade.
Israel foi chamado para influenciar, mas repetidas vezes deixou-se influenciar.
Os profetas denunciaram isso:
“O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento.”
(Oséias 4:6)
“Efraim se mistura com os povos.”
(Oséias 7:8a)
O caso de Salomão é ainda mais emblemático.
Ele promoveu alianças políticas, casou-se com mulheres estrangeiras e permitiu que seus deuses entrassem em Israel.
³ E tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração.
⁴ Porque sucedeu que, no tempo da velhice de Salomão, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era perfeito para com o Senhor seu Deus, como o coração de Davi, seu pai,
(1 Reis 11:3-4)
Afinal, era só a cultura delas, não era?
O resultado foi idolatria, juízo e divisão do reino.
A história bíblica mostra um padrão: quando o povo de Deus dilui sua identidade para se tornar aceitável, acaba perdendo sua fidelidade.
4. O Evangelho e os humildes
Sincretismo, no sentido clássico, é a mistura de sistemas religiosos distintos. Contudo, também pode ocorrer de forma mais sutil, quando categorias externas ao Evangelho passam a moldar sua interpretação, alterando seu centro e sua ênfase.
A igreja primitiva também enfrentou isso. Nos primeiros séculos, havia pressões para adaptar o cristianismo às filosofias dominantes. O filósofo Celso (c. 175–180 d.C.) criticava o cristianismo dizendo que ele atraía apenas “os simples, os escravos e as mulheres”.
Ou seja, o Evangelho sempre foi visto como fé dos humildes.
Hoje, dados do Datafolha mostram que no Brasil a maioria dos cristãos é composta por mulheres e negros. Historicamente e atualmente, os menos favorecidos sempre estiveram entre os primeiros a serem impactados pelo Evangelho.
Por isso, a narrativa de que “a igreja é apenas para ricos” não se sustenta nem historicamente nem estatisticamente.
O Evangelho nunca foi elitista conforme a proposta defendida pelo compositor da música.
5. Uma contradição?
A música celebra o fato de que o povo simples herdará o Reino de Deus. Isso é absolutamente bíblico:
“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus.”
(Mateus 5:3)
Mas há uma questão levantada por muitos:
Se o objetivo é alcançar o “Zé” e a “Maria”, por que a linguagem e estrutura musical não são facilmente compreendidas por esse mesmo povo?
Ainda que o grupo se posicione como MPB cristã, há quem questione se sua linguagem e estrutura musical são realmente acessíveis ao público simples que a própria música diz representar. Nisso, cria-se uma tensão: a proposta é popular, mas a comunicação não é necessariamente acessível.
Evangelização não é apenas intenção. É clareza.
6. Ideologia e Evangelho
Outro ponto que precisa ser mencionado são declarações públicas do compositor Marco Telles que demonstram alinhamento com perspectivas próximas à teologia da libertação.
Aqui é preciso cuidado:
O Evangelho tem implicações sociais. Mas quando o discurso o reduz a uma pauta meramente social, ele deixa de ser Evangelho.
O Evangelho envolve justiça, sim, mas também envolve arrependimento, conversão, novo nascimento e santidade.
Quando a mensagem se torna apenas denúncia social, e não proclamação da cruz, algo essencial foi perdido.
7. Pelos frutos os conhecereis
Jesus disse:
“Pelos seus frutos os conhecereis.”
(Mateus 7:16-20)
O fruto de um louvor deveria ser adoração clara, edificação e unidade.
E o Evangelho pode gerar oposição por causa da verdade proclamada. Mas quando a confusão nasce da falta de clareza da própria mensagem, é sinal de que algo precisa ser revisto.
Isso não significa condenação apressada, mas significa discernimento.
8. A parábola completa
Em entrevistas e declarações públicas, o próprio compositor afirmou que a música seria uma “teatralização contemporânea” da parábola do Grande Banquete. Sendo assim, é legítimo analisarmos essa parábola à luz do texto bíblico completo.
Na parábola do banquete, Jesus não fala apenas de portas abertas, mas também de vestes adequadas. A graça convida, mas não dispensa transformação. Quando enfatizamos apenas a inclusão e silenciamos a responsabilidade, apresentamos metade da mensagem.
Por outro lado, há também o perigo inverso: focar apenas nas vestes e esquecer do chamado. Quando a ênfase recai somente sobre a exigência e não sobre a graça que convida, corre-se o risco de transformar o Evangelho em moralismo e legalismo, como se a entrada no banquete dependesse primeiro do mérito humano. A parábola não começa com a roupa adequada, mas com o convite generoso do rei.
O equilíbrio bíblico está em manter as duas verdades juntas: a graça que chama e a transformação que responde; o convite aberto e a vida renovada; a misericórdia que acolhe e a santidade que molda.
Jesus nunca foi extremista. Ele era cheio de graça e de verdade (João 1:14). Não relativizava o pecado, mas também não fechava a porta ao pecador arrependido. É esse equilíbrio, ou melhor, essa integridade do Evangelho, que precisamos preservar.
Não podemos anunciar apenas metade da mensagem. Devemos proclamar o Evangelho completo: graça que alcança, fé que responde e vida que é transformada.
Conclusão: cultura sim, mas não a qualquer custo
Sim, podemos usar a cultura como ponto de contato.
Sim, podemos dialogar com a identidade do nosso povo.
Sim, o Evangelho pode ser cantado com ritmos brasileiros.
Mas não a qualquer custo.
Não ao ponto de obscurecer a mensagem.
Não ao ponto de gerar ambiguidade espiritual.
Não ao ponto de tirar o foco do arrependimento, da cruz, da santidade e da pureza na adoração.
A cultura pode ser uma ponte.
Mas a cruz precisa continuar sendo o centro.
Se a ponte se torna mais importante do que a mensagem, perdemos o rumo.
Que Deus nos dê discernimento.
Nem legalismo cultural.
Nem relativismo espiritual.
Mas fidelidade ao Evangelho puro e simples de Cristo.
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